Costumam me perguntar, na agência, por onde começar uma estadia na Martinica. Minha resposta às vezes surpreende: antes de partir para as praias do Sul ou para o Monte Pelée, reserve uma manhã para visitar Fort-de-France a pé. A capital da ilha concentra, em menos de dois quilômetros quadrados, uma biblioteca tombada vinda diretamente da Exposição Universal, uma catedral de ferro, um forte militar ainda em atividade e um parque emblemático no coração dos debates sobre a memória antilhana. É a melhor introdução possível à Martinica, esse departamento francês ultramarino (DROM) de cerca de 360.000 habitantes, onde se paga em euros e se passa sem transição do francês ao crioulo.
Eis o roteiro que recomendo aos meus viajantes, testado e refinado ao longo dos anos, com as distâncias, as durações e os pequenos detalhes que os guias esquecem de mencionar.
Por que explorar o centro a pé
Fort-de-France não é uma cidade feita para o carro. As ruas do centro histórico são estreitas, muitas vezes de mão única, e estacionar é um verdadeiro desafio. A pé, ao contrário, tudo o que é essencial se conecta num circuito de 2,5 a 3 km, ou seja, meia jornada tranquila com as pausas.
Algumas referências práticas antes de partir:
- Quando vir: prefira a estação seca, a Quaresma, de dezembro a abril. As manhãs são as mais agradáveis; mire entre 8h e 11h para evitar o forte calor.
- Estacionamento: deixe o carro no estacionamento do Malecon, à beira-mar, ou nos estacionamentos pagos próximos da Savane (cerca de 1 a 2 € por hora).
- Vestuário: sapatos fechados confortáveis, água, chapéu e protetor solar. O sol tropical bate forte mesmo no inverno.
- Segurança: o centro é animado durante o dia e nos dias de semana; fique atento aos domingos, quando parte do comércio fecha e as ruas se esvaziam.
Um lembrete útil: a Martinica vive com 5 horas de diferença em relação a Paris no inverno e 6 horas no verão. Lembre-se disso para suas ligações.

Etapa 1: a biblioteca Schoelcher, joia de ferro e cor
Comece pelo monumento mais fotografado da capital. A biblioteca Schoelcher, na esquina das ruas de la Liberté e Perrinon, é uma maravilha de arquitetura metálica assinada por Henri Picq. Apresentada na Exposição Universal de Paris em 1889, foi desmontada, enviada de navio e depois remontada em Fort-de-France em 1893.
Seu nome homenageia Victor Schoelcher, artífice da abolição da escravidão de 1848, que doou sua biblioteca pessoal à Martinica. A fachada policromática, a cúpula bizantina e os mosaicos já valem o desvio por si sós.
Bom saber
- A entrada é gratuita; pode-se admirar a grande sala de leitura nos horários de funcionamento (em geral de terça a sábado).
- Reserve de 15 a 20 minutos no local, mais alguns minutos para as fotos da calçada em frente, de onde se capta a fachada inteira.
- O edifício é tombado como Monumento histórico: sem flash, e respeito ao silêncio dos leitores.
Etapa 2: a catedral Saint-Louis, a «dama de ferro» da cidade
A cinco minutos a pé, na rua Schoelcher, ergue-se a catedral Saint-Louis. Reconstruída em 1895 após uma série de sismos, incêndios e ciclones que haviam destruído os edifícios anteriores, ela adota uma estrutura metálica de estilo neobizantino, concebida para resistir aos terremotos.
Sua flecha culmina a mais de 50 metros e serve de ponto de referência em todo o centro. No interior, a luz filtrada pelos vitrais e o órgão merecem uma pausa. A entrada é livre; exige-se vestuário adequado.
É também a ocasião de observar a vida local: no adro e nas ruas ao redor, as vendedoras oferecem frutas tropicais, accras e caldo de cana. Prove um sorvete de coco artesanal (cerca de 2 a 3 €) se cruzar com um vendedor ambulante: é uma instituição.
Etapa 3: o parque da Savane e suas estátuas debatidas
Dirija-se agora ao pulmão verde da cidade, o parque da Savane, uma vasta esplanada arborizada de cinco hectares ladeada de palmeiras reais. É aqui que pulsa o coração de Fort-de-France: corredores ao amanhecer, famílias no fim de semana, vendedores de sorvete e quadras de petanca.
A Savane abriga várias estátuas que contam a história agitada da ilha:
- A estátua de Pierre Belain d’Esnambuc, primeiro colono francês desembarcado em 1635, ainda de pé e sempre comentada.
- O local da antiga estátua da imperatriz Joséphine, nascida em Les Trois-Îlets. Decapitada e depois manchada de tinta vermelha por ativistas ao longo das décadas, ela foi finalmente derrubada em 2020. Seu pedestal vazio continua sendo um poderoso símbolo dos debates sobre a memória na Martinica, ligados em particular ao papel atribuído a Joséphine no restabelecimento da escravidão em 1802.
Sempre aconselho dedicar um tempo a observar esses vestígios: eles dizem muito de uma sociedade que questiona seu passado colonial. Na extremidade da Savane, não perca o mercado de legumes e a Pointe Simon, o moderno distrito de negócios de frente para o mar.
