Mal se menciona uma viagem às Antilhas francesas, volta sempre a mesma pergunta, sussurrada a meia-voz: «E a clordecona, pode-se mesmo assim nadar?». Ouço-a todas as semanas da boca dos meus hóspedes, muitas vezes logo após a aterragem no aeroporto Aimé Césaire. Depois de anos a receber viajantes na ilha, creio que é preciso responder com franqueza, sem minimizar o assunto nem alimentar a histeria. Eis, portanto, um balanço honesto sobre a clordecona e o banho na Martinica: o que diz a ciência, onde a pesca é regulamentada e por que pode dar um mergulho em Les Salines com toda a tranquilidade.
O que é exatamente a clordecona?
A clordecona é um pesticida organoclorado utilizado nas bananeiras das Antilhas francesas entre 1972 e 1993 para combater o gorgulho. Proibida desde então, permanece contudo nos solos: é uma molécula extremamente estável, que praticamente não se degrada. Os cientistas estimam que persistirá em certas terras durante várias décadas, ou mesmo vários séculos consoante o tipo de solo.
O problema de saúde pública é, portanto, bem real e documentado. Mas é preciso compreender como a contaminação atinge o ser humano, pois é aí que se joga toda a diferença para um viajante.
Uma poluição dos solos, não do mar
O ponto essencial, demasiadas vezes esquecido nas conversas de praia: a clordecona é um poluente que se agarra aos solos e aos sedimentos. Não se dissolve na água do mar como o sal. A molécula migra lentamente das terras agrícolas para os rios, depois para certas fozes e lodaçais costeiros onde se fixa no fundo.
Em concreto, o risco para a saúde passa pela alimentação:
- os legumes de raiz cultivados em solo contaminado (inhame, taro, batata-doce, malanga);
- certos peixes e crustáceos que vivem no fundo de zonas costeiras poluídas, que acumulam a molécula na sua carne;
- a água de alguns rios e captações situados a jusante das antigas bananeiras.
O banho no mar, por sua vez, não é uma via de exposição identificada pelas autoridades sanitárias. Ninguém se intoxica com clordecona ao nadar, ao engolir por acidente um gole de água salgada, nem ao apanhar sol na areia.

Pode-se nadar sem risco na Martinica?
Sim. É a resposta clara, e assenta na posição constante das autoridades sanitárias: nenhuma proibição de banho está ligada à clordecona no litoral martiniquês. As praias emblemáticas da costa das Caraíbas e do sul — Les Salines em Sainte-Anne, Anse Dufour, Anse Noire de areia vulcânica, Grande Anse d’Arlet, Pointe Marin — são locais de banho totalmente seguros sob este ponto de vista.
A clordecona é uma questão alimentar, não balnear: é toda a nuance a ter em mente.
Os verdadeiros riscos do banho estão noutro lado
Prefiro redirecionar a atenção dos meus hóspedes para o que de facto merece a sua vigilância na água, e que nada tem a ver com um pesticida: as correntes de retorno da fachada atlântica (Tartane, península da Caravelle), os sargaços do lado leste, o sol tropical e os ouriços dos fundos rochosos. Para estes temas, mais vale respeitar as bandeiras das praias vigiadas e privilegiar a costa das Caraíbas para um banho calmo. O nosso guia completo da Martinica detalha as praias consoante o seu perfil e a estação.
Qualidade da água de banho na Martinica: onde encontrar a informação
A qualidade da água de banho na Martinica é objeto de um controlo oficial todos os anos. Estas análises, realizadas durante a época balnear, incidem sobre as bactérias (contaminação microbiológica de origem humana ou animal), e não sobre a clordecona — precisamente porque esta última não é um parâmetro de banho.
Para preparar a sua estadia, dois reflexos úteis:
- Consulte a ARS Martinica (Agência Regional de Saúde). O site da ARS publica a classificação das águas balneares por local, praia a praia. É a fonte oficial de referência para o banho na Martinica.
- Repare nos painéis no local. As praias vigiadas exibem a sua classificação e o estado das bandeiras do dia. Uma bandeira verde ou laranja diz respeito à segurança (correntes, ondulação), não à poluição química.
A grande maioria dos locais da ilha está classificada como de excelente ou boa qualidade. Os raros encerramentos temporários, geralmente após fortes chuvas, devem-se a uma ultrapassagem bacteriológica pontual, rapidamente reposta na normalidade.
Zonas de pesca proibidas: o verdadeiro impacto da clordecona
Onde a clordecona muda realmente os hábitos é na pesca, e portanto naquilo que porá no seu prato se comprar peixe à beira da estrada.
Para proteger a população, decretos prefeitorais definem zonas interditas à pesca (costeira e em rio) onde os sedimentos estão mais carregados. Estes perímetros dizem sobretudo respeito a:
- fozes de rios e baías do norte e do leste da ilha, a jusante das antigas bananeiras;
- certas zonas costeiras atlânticas onde vivem espécies de fundo.
As espécies que mais acumulam a molécula são as que escavam os sedimentos: certos peixes de fundo, bem como crustáceos como as lagostas e sobretudo os ouassous (grandes camarões de rio) pescados nos cursos de água contaminados.
Comprar e comer peixe com confiança
Boa notícia para o viajante: o peixe vendido pelo circuito oficial é seguro. Os pescadores profissionais operam em zonas autorizadas e as suas capturas são controladas. No restaurante, no mercado coberto de Fort-de-France ou num peixeiro declarado, o peixe pelágico (atum, dourado-do-mar chamado localmente «dorade», espadim, serra) provém do alto mar: não é afetado pela clordecona, que continua a ser um poluente de fundo e de litoral.
Os meus conselhos para desfrutar da gastronomia local com serenidade:
- Privilegie a compra a profissionais (mercados, peixarias, lolos) em vez da pesca selvagem no rio.
- Quanto aos legumes, varie as fontes: as cadeias de circuito curto e controladas são a norma.
- Se gosta de pesca à linha nas férias, informe-se sobre as zonas autorizadas antes de lançar a linha no rio ou na foz.
Um colombo de peixe, uns accras, um court-bouillon de dourado: estes pratos do quotidiano martiniquês não colocam qualquer problema. Comer local faz parte da viagem.
