À Martinica vem-se pelas praias do Sul, pelo rum e pela Montanha Pelée. Mas, depois de vários anos a receber viajantes na ilha, sei que falta uma peça do quebra-cabeça enquanto não se compreende uma coisa: quase tudo o que amamos aqui — as colinas cobertas de cana, as destilarias, a cozinha crioula, até o nome dos bairros — nasceu de um mesmo sistema. A história das fazendas na Martinica é a história do açúcar, e o açúcar não se conta sem a escravidão que o tornou possível. É o que explico aos meus clientes quando me perguntam por que tal ruína fica à beira da estrada, ou por que uma destilaria se chama «habitation» (fazenda). Eis essa história, e onde ler os seus vestígios hoje.
Nas origens: a cana e o nascimento da fazenda
A Martinica é colonizada pela França a partir de 1635. Os primeiros colonos tentam o tabaco e o índigo, mas é a cana-de-açúcar, importada do Brasil pelos holandeses em meados do século XVII, que muda tudo: o clima tropical e os solos vulcânicos do Norte convêm-lhe perfeitamente. Em poucas décadas, a ilha entra numa monocultura que estruturará o seu território durante quase três séculos.
É aí que surge a fazenda («habitation»). A palavra presta-se a confusão: não designa uma casa, mas uma propriedade agrícola completa. Uma fazenda açucareira reunia num mesmo lugar:
- os campos de cana, escalonados nas encostas das colinas;
- o engenho (de vento, de água ou de tração animal) que triturava as canas para extrair o sumo, o «vesou»;
- a casa do açúcar e as suas caldeiras, onde se cozia o sumo para o cristalizar;
- a casa-grande, no alto para vigiar a propriedade;
- a senzala (rue cases-nègres), onde viviam os escravizados.
Uma fazenda era, portanto, uma microssociedade hierarquizada, quase uma aldeia fechada. A Martinica teve várias centenas delas, e muitos municípios e lugarejos ainda levam o nome destas antigas propriedades. No século XVIII, o açúcar é um produto de luxo: as Antilhas tornam-se as «ilhas do açúcar» que fazem a fortuna dos portos franceses — Bordéus, Nantes, La Rochelle — e a Martinica figura entre as colónias mais rentáveis do mundo. Uma riqueza inteiramente construída sobre uma mão de obra escravizada.

A escravidão na Martinica: o coração do sistema das fazendas
Não se pode falar da história das fazendas na Martinica mantendo a escravidão numa nota de rodapé: ela era o motor. O cultivo e a transformação da cana são extenuantes — cortar com o facão sob o sol, alimentar as caldeiras, trabalhar de noite em plena colheita. Para esta produção, a França deporta, através do tráfico atlântico, centenas de milhares de africanos para as Antilhas ao longo de dois séculos.
A vida na fazenda era regida pelo Code Noir (Código Negro, 1685), que definia o escravizado como um bem móvel. A escravidão na Martinica conheceu também uma resistência constante: a fuga para as colinas, as revoltas, uma dignidade nunca extinta. Alguns marcos para se situar:
- 1685: Código Negro, quadro legal da escravidão colonial.
- 1794: primeira abolição pela Convenção, não aplicada na Martinica (ocupação britânica).
- 1802: restabelecimento da escravidão por Napoleão.
- 22 de maio de 1848: abolição definitiva, num contexto de insurreição. O 22 de maio continua a ser um feriado comemorado na ilha.
Esta cronologia explica por que certos lugares de memória estão tão carregados, e por que o tema continua a ser uma questão do presente martinicano.
Depois de 1848: trabalhadores indianos contratados e a persistência da cana
A abolição não faz desaparecer as fazendas. Privados de mão de obra escravizada, os fazendeiros trazem trabalhadores contratados da Índia (a partir de 1853): daí a herança indiana da cultura crioula, do colombo aos templos. A plantação de cana continua a ser a espinha dorsal da economia por mais um século, antes do declínio do açúcar face à beterraba europeia.
Do açúcar ao rum: a grande reconversão
É aqui que a história encontra o que os viajantes adoram. À medida que o açúcar perde valor, as fazendas reinventam-se e começam a destilar, já não o melaço mas diretamente o puro sumo de cana: é o nascimento do rum agrícola (rhum agricole), tornado AOC em 1996, caso único no mundo para um rum.
Eis por que tantas destilarias levam o nome de «habitation»: são antigas plantações reconvertidas. Visitar uma destilaria é caminhar por uma fazenda. Alguns exemplos:
- Habitation Clément (Le François): propriedade patrimonial com casa-grande crioula, parque e armazéns de envelhecimento. Conte 16 a 18 € a entrada e 2 a 3 h no local.
- Distillerie Depaz (Saint-Pierre): ao pé da Pelée, em terras reconstruídas após 1902; castelo e jardins gratuitos.
- Saint-James (Sainte-Marie) e o seu museu do rum, muito pedagógico; La Mauny e Trois-Rivières completam o Sul.
Percorrer esta «Rota dos Runs» é fazer história sem que pareça. O nosso guia da Martinica detalha as destilarias a encadear consoante a sua base.
