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Carnaval de Guadalupe: datas, percursos e segredos dos grupos a po

Publicado em 12 de fevereiro de 2026 · por Ismael Samuel

Carnaval de Guadalupe: datas, percursos e segredos dos grupos a po

Quando se vive em Guadalupe, nao se diz que se “assiste” ao carnaval: vive-se, caminha-se, danca-se. No inicio, acreditamos conhecer o carnaval — os carros alegoricos, os brilhos, os confetes. Depois, numa noite de janeiro, em Pointe-a-Pitre, uma parede de tambores de pele surge da escuridao, dezenas de corpos cobertos de melaco avancando em compasso, e percebemos que o carnaval de Guadalupe nao tem nada de espetaculo para turistas: e um rito coletivo, uma memoria que caminha, uma estacao inteira que estrutura a vida do arquipelago em forma de borboleta, da Grande-Terre balnear ate as encostas vulcanicas de Basse-Terre. Para uma primeira estadia nesta epoca, e melhor compreender o calendario, saber onde se posicionar e decifrar os codigos dos grupos a po. Este e o guia que gostariamos de ter tido no nosso primeiro carnaval gwadloup.

Um calendario que se estende de janeiro a marco

Primeira surpresa para quem vem da metropole: o carnaval nao segue o calendario do Hexagono e nao se resume a uma Terca-feira Gorda. E uma longa subida de intensidade que comeca muito cedo, logo na Epifania, o primeiro domingo apos 6 de janeiro, e so se apaga a meio da Quaresma. Cada domingo torna-se um domingo gordo (dimanche gras): um municipio ou um grupo abre a temporada, e depois o ritmo acelera de fim de semana em fim de semana, pontuado por ensaios de rua a noite.

O coracao da festa sao os dias gordos (jours gras), mesmo antes da Quarta-feira de Cinzas. Para 2026, concentram-se de domingo, 15, a quarta-feira, 18 de fevereiro:

  • Domingo gordo: o grande desfile, muitas vezes o mais colorido, o mais denso e o mais fotografado.
  • Segunda-feira gorda: o dia dos casamentos burlescos, em que os papeis se invertem (os homens de noivas, as mulheres de noivos).
  • Terca-feira Gorda: o desfile dos diabos vermelhos e, a noite, os desfiles mais poderosos dos grupos a po.
  • Quarta-feira de Cinzas: o dia mais carregado de emocao, dedicado a Vaval, o rei do carnaval. Toda a multidao se veste de preto e branco para chorar a sua morte na beira-mar, antes de ele ser queimado. E o momento mais comovente, a nao perder.

E nem tudo termina ai: a meia-Quaresma oferece um ultimo sobressalto, com o regresso das diabas de vermelho e preto. Em 2026, cai na quinta-feira, 12 de marco.

Bom saber: tudo isto coincide com a Quaresma guadalupense (careme), a estacao seca de dezembro a abril, com dias ensolarados de cerca de 28-30 graus. Aproveita um clima ideal, perfeito para encadear uma manha na praia da Caravelle, em Sainte-Anne, e um desfile a tardinha.

Groupe de carnaval masqué en costumes rouges et blancs dansant dans une rue du Moule lors du carnaval de Guadeloupe
Un groupe à masques défile dans les rues du Moule pendant le carnaval guadeloupéen. — © Auregann (Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0)

Decifrar os grupos a po, a alma do carnaval

A verdadeira essencia do carnaval de Guadalupe sao os grupos a po (grupos “de pele”). O nome vem dos tambores de pele (sobretudo de cabra, por vezes de ovelha ou de boi), tocados com as maos nuas. Sem aparelhagem, sem carro alegorico com brilhos: apenas a percussao, as conchas de lambi, o chacha e cantos em crioulo retomados por centenas de vozes. Estas formacoes nao sao simples grupos festivos: nascidas de um movimento de afirmacao cultural conduzido por uma juventude engajada da regiao de Pointe-a-Pitre, reivindicam uma identidade, uma historia, uma resistencia. Compreender os seus codigos muda completamente a experiencia.

As figuras emblematicas

  • Mas a kongo: corpos cobertos de melaco ou de lama negra, encarnam a memoria da escravatura e a resistencia dos quilombolas. Imponentes e respeitados.
  • Neg gwo siwo: untados de espesso xarope de cana, “carregam” contra a multidao para a fazer recuar (mantenha a distancia para nao se manchar).
  • Mas a roukou: pele tingida de vermelho com o roucou, planta tintureira local.
  • Mas a goudron: rostos enegrecidos, uma estetica crua e ancestral.
  • Mas a lan mo: trajes de esqueletos que evocam a morte e os antepassados.

Como se comportar diante dos grupos a po

  1. Respeite a distancia: alguns grupos “carregam” simbolicamente contra a multidao. Recue com um sorriso, faz parte do jogo.
  2. Proteja as roupas claras: o melaco, o roucou e o xarope mancham de forma duradoura.
  3. Peca antes de fotografar de perto: estes mas carregam uma forte carga cultural, e a atitude conta.
  4. Deixe-se levar pelo ritmo: bater palmas, retomar os cantos — e assim que o acolhem.

Estes grupos representam a alma do carnaval: uma festa sincretica, ao mesmo tempo resistencia historica, transmissao crioula e alegria coletiva. E o que distingue radicalmente o carnaval guadalupense dos carnavais mais turisticos.

Do mas a Saint-Jean ao gwo siwo: compreender os estilos

Nem todos os grupos a po tocam a mesma coisa. Duas grandes escolas estruturam o arquipelago.

O mas a Saint-Jean, a matriz de Pointe-a-Pitre

O mas a Saint-Jean (ou mas a sen jan em crioulo) e o ancestral direto dos grupos a po modernos. O nome vem de um grupo historico de Pointe-a-Pitre, batizado em honra de um dos seus lideres, Victor Emmanuel Bernadin Germain, apelidado de Saint-Jean. Originalmente, os musicos tocavam tambores improvisados com latas de conserva revestidas de pele de cabra: uma musica polimetrica, em que cada tamborileiro toca no intervalo deixado pelo vizinho.

Foi dessa raiz que surgiu Akiyo, o grupo mais emblematico da regiao de Pointe-a-Pitre. E a tradicao mantem-se viva: para 2026, um novo grupo, Sikamas, revisita essa base Saint-Jean com um balanco mais proximo do zouk. Nao se trata, pois, de um folclore fixo, mas de uma cultura que se reinventa.

O gwo siwo e a Terca-feira Gorda em Basse-Terre

Em Basse-Terre, prefeitura considerada o berco do carnaval guadalupense, a festa ganha uma cor mais rude, mais telurica, sob o olhar de La Soufriere (1467 m). Aqui domina o gwo siwo, esse ritmo pesado associado aos corpos cobertos de xarope. A figura incontornavel e Voukoum (“desordem” em crioulo). Nascido em 20 de marco de 1988 no bairro de Bas-du-Bourg, este movimento reivindica uma heranca africana assumida. Os seus membros desfilam em trajes chamados mas boukliye (branco) e mas banmou (vermelho). Voukoum e conhecido sobretudo pelos seus desfiles noturnos, e a Terca-feira Gorda em Basse-Terre continua a ser um momento alto para viver pelo menos uma vez, ao lado de grupos como K’Mawon ou Leritaj.

Groupe de tambours et percussionnistes en tenues rouge et or paradant sur le parcours du carnaval du Moule en Guadeloupe
Le groupe de percussions, moteur rythmique du défilé, sur le parcours du carnaval guadeloupéen. — © Auregann (Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0)

Os grandes percursos: onde e quando viver os melhores desfiles

Dois palcos principais estruturam o carnaval de Guadalupe, cada um com a sua personalidade. Se a sua estadia for curta, escolha conforme o ambiente que procura.

Basse-Terre, o carnaval historico e telurico

A prefeitura e o berco do carnaval guadalupense. O seu desfile de domingo gordo desce o boulevard du General de Gaulle em direcao a beira-mar, com o cenario espetacular de La Soufriere ao fundo. O ambiente e mais tradicional, mais enraizado no patrimonio, sobretudo na Terca-feira Gorda para viver o gwo siwo e a energia de Voukoum diante do vulcao.

Para se posicionar bem:

  • Chegue 2 a 3 horas antes da partida anunciada para conseguir um lugar no passeio, a sombra.
  • Privilegie as imediacoes da beira-mar: os grupos dao a sua melhor energia no fim do percurso.
  • Conte cerca de 45 minutos a 1 hora de carro desde o sul da Grande-Terre (Le Gosier, Sainte-Anne) conforme o transito, denso nos dias gordos.

Pointe-a-Pitre, o carnaval mais espetacular

Polo economico do arquipelago, Pointe-a-Pitre oferece o desfile mais massivo e festivo. O percurso toma as grandes arterias do centro, muitas vezes em torno da place de la Victoire e dos cais. Dezenas de grupos, por vezes mais de mil participantes por formacao, desfilam durante horas, levados pelo estilo sen jan e por grupos como Akiyo.

As minhas referencias de local:

  • Posicione-se na place de la Victoire: vera a sequencia completa dos grupos e aproveitara as barracas de bokit (a sanduiche frita local, de 4 a 6 euros) e de sumo de cana.
  • Evite o carro no centro: estacione na periferia e caminhe, ou venha em boleia partilhada. As ruas estao fechadas e o transito esta saturado.
  • Para as familias, escolha o inicio do percurso, mais arejado e menos denso do que a chegada.

E noutros lugares: os desfiles noturnos mais intimos

Le Gosier e Sainte-Rose acolhem desfiles noturnos mais intimos, ideais para se aproximar dos grupos a po sem a multidao das grandes cidades.

Dica vivida: leve tampoes para os ouvidos das criancas, agua, bone e sapatos fechados. Os grupos a po saem sobretudo a noite, o som dos tambores e fisico, recebe-se no peito, e fica-se de pe muito tempo. Para situar estes municipios e organizar os seus dias, o nosso guia completo de Guadalupe da a visao de conjunto.

Organizar bem a sua estadia durante o carnaval

O carnaval continua a ser a alta temporada local por excelencia: a procura de alojamentos dispara nas semanas dos dias gordos. Alguns conselhos para uma estadia tranquila a partir do aeroporto Pole Caraibes (Pointe-a-Pitre):

  • Reserve cedo: os alojamentos esgotam-se depressa nas semanas dos dias gordos.
  • Hospede-se na Grande-Terre (Le Gosier, Sainte-Anne, Saint-Francois) para combinar os desfiles da tardinha e as praias turquesa como a Caravelle em Sainte-Anne ou a Pointe des Chateaux, mantendo-se a distancia de Basse-Terre para a Terca-feira Gorda.
  • Alugue um carro: indispensavel para chegar a Basse-Terre, as cascatas do Carbet ou a Reserva Cousteau em Malendure nos dias sem desfile.
  • Alterne festa e natureza: entre dois desfiles, uma manha de snorkel nos ilhotes Pigeon ou uma excursao a Les Saintes (Terre-de-Haut) equilibra perfeitamente a estadia.

Para se orientar no arquipelago e planear os seus dias, percorra os nossos alojamentos em Guadalupe, selecionados pela proximidade aos municipios festivos.

Por que reservar com a Hostel Toucan

Na Hostel Toucan, somos residentes e caminhamos o carnaval todos os anos: conhecemos cada percurso, cada municipio, cada bom local para o viver sem stress. Ao reservar diretamente connosco, beneficia de:

  • Reserva direta sem taxas de plataforma: paga o preco justo.
  • Cancelamento gratuito ate 7 dias antes da chegada, para reservar com total tranquilidade.
  • Assistencia por WhatsApp 7 dias por semana: um horario de desfile, um itinerario noturno, um endereco de bokit? Respondemos depressa.

E proprietario de um imovel em Guadalupe e a forte procura do carnaval interessa-lhe? Descubra a nossa oferta de gestao de alojamentos na pagina proprietarios.

O carnaval de Guadalupe nao e uma atracao, e uma transmissao. Depois de ter compreendido o mas a Saint-Jean, o gwo siwo e a carga dos grupos a po, nunca mais se olha para um desfile da mesma maneira. Bem preparado, bem posicionado, bem alojado: so lhe resta deixar-se levar, ao som dos tambores e sob o sol da estacao seca.

Perguntas frequentes

Quando acontece o carnaval de Guadalupe em 2026?

O carnaval comeca logo na Epifania, o primeiro domingo apos 6 de janeiro, com domingos gordos sucessivos. O coracao da festa, os dias gordos, decorre de domingo, 15, a quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026, dia da incineracao de Vaval, o rei do carnaval. Um ultimo encontro tem lugar a meia-Quaresma, na quinta-feira, 12 de marco de 2026.

O que sao os grupos a po?

Os grupos a po (grupos “de pele”) desfilam ao ritmo dos tambores de pele, das conchas de lambi e de cantos crioulos. Entre eles encontram-se os mas a kongo cobertos de melaco, os neg gwo siwo untados de xarope de cana, os mas a roukou de vermelho ou os mas a lan mo vestidos de esqueletos. Encarnam a alma crioula e a memoria da resistencia.

O que e o mas a Saint-Jean?

O mas a Saint-Jean (mas a sen jan) e o estilo fundador dos grupos a po, nascido em Pointe-a-Pitre e batizado em honra de um dos seus lideres historicos apelidado de Saint-Jean. Tocado na origem com tambores de latas de conserva revestidas de pele de cabra, caracteriza-se por uma musica polimetrica. O grupo Akiyo e o seu herdeiro mais conhecido.

Onde ver os mais belos desfiles do carnaval guadalupense?

Dois palcos principais: Pointe-a-Pitre, o mais massivo e festivo, em torno da place de la Victoire com o estilo sen jan; e Basse-Terre, o berco historico, o mais autentico e telurico, sobretudo na Terca-feira Gorda com o gwo siwo e Voukoum diante de La Soufriere. Le Gosier e Sainte-Rose oferecem desfiles noturnos mais intimos. Chegue 2 a 3 horas antes da partida e leve agua e protecao auditiva.

Qual e a melhor epoca para vir durante o carnaval?

O carnaval coincide com a estacao seca, de dezembro a abril, com dias ensolarados de cerca de 28-30 graus. E ideal para alternar desfiles, as praias turquesa da Grande-Terre e excursoes para Basse-Terre, Les Saintes ou a Reserva Cousteau nos dias sem desfile.

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