Num terraço de Fort-de-France, um ti-punch numa mão e um acra fervente na outra: é essa a imagem que melhor resume o aperitivo da Martinica. Os acras de bacalhau são muito mais do que um simples bolinho frito. Abrem quase todas as refeições festivas, da beira da praia de Les Salines às mesas de família de La Trinite. Depois de anos a prová-los (e a estragar algumas fornadas), aqui está a minha receita de referência, as variações que realmente valem o desvio e as armadilhas de fritura que transformam um belo acra numa esponja de óleo.
Os acras de bacalhau, prato emblemático da Martinica
O acra é um bolinho salgado frito, leve e arejado por dentro, crocante por fora. Na Martinica, prepara-se tradicionalmente com bacalhau salgado, esse peixe seco herdado das antigas trocas comerciais. A palavra viria do fon, língua da África Ocidental, prova de que este prato conta também a história mestiça da ilha.
Serve-se quente, em pilha, muitas vezes acompanhado de um molho chien (cebola, salsa, lima, pimenta, óleo) ou de um simples gomo de limão. Durante o Carnaval de fevereiro e março ou as noites do Careme (de dezembro a abril, a estação seca), é impossível escapar deles.
Por que é preciso prová-lo no local
Um acra caseiro, comido nos cinco minutos seguintes à fritura, não tem nada a ver com os embalados a vácuo dos supermercados. A textura fofa, o aroma do piment vegetarien (essa pimenta doce antilhana, não picante) e o frescor do bacalhau dessalgado só se sentem quente. É também um excelente revelador da cozinha de um restaurante: um bom acra costuma significar boa mesa.

A receita tradicional dos acras de bacalhau
Para cerca de 30 acras (4 a 6 pessoas como aperitivo), conte 45 minutos de preparação mais a dessalga.
Ingredientes
- 250 g de bacalhau salgado
- 250 g de farinha de trigo
- 1 saqueta de fermento químico (11 g)
- 1 ovo
- cerca de 15 cl de água morna
- 3 oignons-pays (cives) ou 1 molho de cebolinho
- 2 dentes de alho
- 1 piment vegetarien pequeno (doce), eventualmente uma ponta de pimenta picante
- 1 raminho de salsa, algumas folhas de tomilho
- 1 lima
- Óleo de fritura (girassol ou amendoim)
- Sal, pimenta
Passo 1: dessalgar o bacalhau
É o passo que se faz mal sem razão. Deixe o bacalhau de molho num grande volume de água fria pelo menos 12 horas, mudando a água 3 a 4 vezes. Para ganhar tempo, pode escalfar o bacalhau 10 minutos em água a fervilhar após uma demolha curta, mas o resultado é menos fino. Prove um pedacinho cru: deve estar saboroso, não agressivo de sal.
Passo 2: desfiar e temperar
Escalfe o bacalhau dessalgado 8 a 10 minutos, escorra, retire a pele e as espinhas e depois desfie-o finamente à mão. Pique as cives, o alho, a pimenta, a salsa e o tomilho. Misture tudo com um fio de lima.
Passo 3: a massa
Numa tigela, misture a farinha e o fermento. Junte o ovo e depois a água morna pouco a pouco até obter uma massa espessa mas fluida, que forme uma fita. Incorpore o bacalhau temperado. Deixe repousar 30 minutos: o fermento faz o seu trabalho e os acras incham mais.
Passo 4: a fritura
Aqueça o óleo a 170-175 C. Deixe cair colheres de sopa de massa, sem sobrecarregar a fritadeira. Conte 3 a 4 minutos, virando a meio da cozedura, até uma bonita cor dourada. Escorra sobre papel absorvente e sirva imediatamente.
As variações a conhecer
O bacalhau continua a ser a referência, mas os martiniquenses adoram reinventar o acra. Algumas versões que recomendo experimentar:
Acras de legumes
Mais suaves, perfeitos para as crianças ou como opção vegetariana. Substitui-se o bacalhau por legumes ralados ou picados finamente:
- Acras de giraumon (abóbora antilhana), ligeiramente doces
- Acras de couve chinesa ou de epinards-pays (espinafres locais)
- Acras de cenoura e cive
- Acras de flor de bananeira, mais raros e muito aromáticos
A base da massa permanece idêntica; aumenta-se apenas um pouco o tempero, pois os legumes trazem menos sabor do que o bacalhau.
Acras de camarão e frutos do mar
Na costa, sobretudo em Le Francois ou Le Vauclin, encontram-se acras de camarão (chevrettes locais) ou de lambi (búzio). A carne é picada de forma grossa para manter alguma textura. Lembre-se de temperar bem e de juntar uma ponta de lima para realçar as notas de iodo.
A marinada apimentada
Alguns cozinheiros juntam uma colher de marinada fermentada da véspera (bacalhau, cives e pimenta macerados) para um sabor mais profundo. É o segredo de muitas avós martiniquenses.

Os erros de fritura mais comuns
Eis as falhas que vejo aparecer com mais frequência e como evitá-las.
- Óleo demasiado frio: abaixo de 160 C, o acra absorve o óleo e fica gorduroso e pesado. Verifique com um termómetro ou com um pedacinho de massa que deve crepitar logo.
- Óleo demasiado quente: acima de 185 C, o exterior aloura enquanto o interior fica cru. Vise 170-175 C.
- Massa demasiado líquida: os acras espalham-se e não incham. A massa deve aguentar-se na colher.
- Sobrecarregar a fritadeira: demasiada massa faz cair a temperatura. Frite em pequenas quantidades.
- Esquecer o repouso da massa: sem os 30 minutos de pausa, os acras ficam densos.
- Dessalgar mal: um acra demasiado salgado estraga todo o prato. Prove sempre antes de cozinhar.
Onde degustar os melhores acras, comuna a comuna
A Martinica percorre-se de carro (vivamente aconselhado): em menos de uma hora a partir de Fort-de-France passa de uma comuna a outra. Eis os meus pontos de referência por zona, com preços realistas (3 a 6 EUR a porção num snack, à volta de 8-10 EUR num restaurante).
Fort-de-France e o centro
O grande mercado coberto e os ti-snacks da beira-mar servem acras a qualquer hora. Ideal para um primeiro contacto, porção a cerca de 4 EUR. A capital conta também com belas mesas crioulas modernas onde o acra é reinventado.
Les Trois-Ilets
Muito turístico mas de qualidade: os restaurantes em torno da Pointe du Bout e da aldeia da Poterie oferecem frequentemente acras como entrada de um menu crioulo completo (entrada e prato à volta de 20-25 EUR). Prático após a visita ao domínio da Pagerie (Josephine de Beauharnais).
Sainte-Anne e o Sul
Depois de um dia na praia de Les Salines, os snacks de Sainte-Anne são perfeitos para um aperitivo de acras e ti-punch de frente para o pôr do sol. Pense também em Anse Dufour e Anse Noire (areia preta) do lado dos Anses-d’Arlet.
Le Diamant
Em frente ao célebre rochedo do Diamante, vários endereços à beira-praia servem acras bem temperados. Bom local para combinar banho e almoço com os pés na areia.
Le Francois e a costa atlântica
É aqui que se encontram os melhores acras de frutos do mar, graças aos pescadores locais. Aproveite durante uma saída aos fonds blancs.
La Trinite / Tartane (península da Caravelle)
Depois de uma sessão de surf ou da caminhada da Caravelle, as mesas de Tartane servem acras muito frescos, frequentemente caseiros.
Saint-Pierre
Subindo em direção à Montanha Pelada e às ruínas classificadas pela UNESCO, faça uma paragem gulosa em Saint-Pierre. O ambiente carregado de história acrescenta prazer.
Dica local: combine o seu circuito de acras com a Rota dos Runs (as destilarias Clement, Depaz em Saint-Pierre, Saint-James, La Mauny e Trois-Rivieres). Um rum agrícola AOC acompanha idealmente estes bolinhos.
Ficar no coração da gastronomia da Martinica
Para degustar os acras nas melhores condições, nada como um alojamento bem localizado, com uma cozinha equipada para tentar a receita por si mesmo após uma passagem pelo mercado. Na Hostel Toucan, propomos alugueres de temporada selecionados por toda a ilha, de Fort-de-France ao Sul das praias.
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FAQ
Quanto tempo é preciso dessalgar o bacalhau para os acras?
Conte pelo menos 12 horas de demolha em água fria, mudando a água 3 a 4 vezes. Prove um pedacinho cru antes de cozinhar: deve estar saboroso mas não agressivo de sal. Uma dessalga insuficiente estraga todo o prato.
A que temperatura fritar os acras de bacalhau?
Vise 170 a 175 C. Abaixo de 160 C, o acra absorve o óleo e fica gorduroso; acima de 185 C, o exterior aloura antes de o interior cozer. Frite em pequenas quantidades para não fazer cair a temperatura.
Pode fazer-se acras sem bacalhau?
Sim. As variações vegetarianas de legumes (giraumon, cenoura, couve chinesa, espinafres locais) são comuns na Martinica, tal como os acras de camarão ou de búzio na costa atlântica. A base da massa é a mesma, ajusta-se apenas o tempero.
Qual é a melhor época para degustar acras na Martinica?
O ano todo, mas a estação seca chamada Careme, de dezembro a abril, oferece o melhor clima para aproveitar os terraços e os snacks à beira-praia. O Carnaval de fevereiro e março é também uma época festiva ideal.